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  • Augusto Damásio

Uma Autonomia Frágil

O Arquipélago dos Açores é formado por nove ilhas dividido em três grupos: Ocidental, Central e Oriental. No arquipélago são muitos os testemunhos de grandes tormentas destrutivas que deixavam as populações insulares isoladas durante semanas e por vezes até meses. Mas foi perante estas dificuldades que o povo açoriano conseguiu apresentar soluções que garantiam o mínimo de subsistência para as suas famílias. Nas terras cultivavam-se cereais, hortaliça variada, batata,  chá, a fruta, desenvolveram-se outras como a criação de gado e tudo isto conferia uma maior autonomia que aquela que hoje o povo açoriano goza. Os anos passaram e muitos destes hábitos foram-se perdendo, e a produção de subsistência familiar foi dando lugar a uma crescente dependência do exterior de consumismo exacerbado. Se antigamente as batatas, as cenouras, a fruta e outros vendiam-se somente nos mercados tradicionais ou eram pura e simplesmente apanhados nas hortas e nos quintais, hoje é com grande preocupação que assistimos a uma vulnerabilidade crescente e inconsciente de procura destes produtos nas prateleiras das grandes superfícies comerciais, uns  oriundos do continente e outros doutros países. Esquecem-se os arautos da autonomia regional que esta não pode ser confinada a algumas gramas de papel e tinta impressa com meia dúzia de assinaturas. A autonomia constrói-se com a obra, com a produção, com a indústria, com a agricultura, e sobretudo com esperança.

O Furacão Lourenço veio revelar algo que desde outras catástrofes já não se via, em tempos tecnologicamente avançados e de muita obra pública veio à tona as fragilidades das populações perante este tipo de fenómenos atmosféricos, que acabam por pagar um preço bem caro através do isolamento e a privação das condições mínimas de vida.

Quis o destino que o Furacão passasse pelo grupo ocidental, provocando uma elevada destruição de infraestruturas, e passadas algumas semanas logo se sentiram os efeitos sobre a população nomeadamente no acesso a bens alimentares e no restabelecimento de serviços necessários ao quotidiano da população local.

Urge perante este aviso deixado pela natureza, repensar o modelo autonómico que pelo que se viu apresenta imensas fragilidades em situações adversas. A redução da dependência com o exterior da região em bens essenciais deve ser equacionada e atrevo-me mesmo a dizer que esta pseudo-autonomia de dependência tem de ser reformada para bem das populações, e se por um lado é impossível não dispensar o apoio exterior em alguns bens e serviços e estar dependente deles por razões técnicas operacionais óbvias, por outro lado não se compreende como foi possível cair neste desleixo de escassez produtiva que é essencial à sobrevivência das populações. A autonomia não pode apenas ser construída no papel em discursos politicamente correctos, tem ser sobretudo a garantia existencial de um povo, a sua sustentabilidade em todos os domínios.

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