A tristeza de ser um Vencido da Vida por Manuel Rezende

O Vencido da Vida é uma figura presente e inevitável da política portuguesa. Os Vencidos da Vida propriamente ditos eram vultos da política e cultura portuguesa de grande renome no final do século de oitocentos. Como o nome assim o indica, estes “vencidos” consideravam que os seus esforços para redimir ou melhorar a sociedade portuguesa tinham sido, ou eram, em vão, pelo que a coisa mais elegante a fazer seria reunirem-se em jantaradas fartas para falar dos seus estrondosos fracassos. O vencidos da vida do século XXI é um candidato auto-nomeado a este grupo iluminado de bêbados snobes.

Partilha com eles o horror pelo quotidiano. O “vencido” é normalmente um homem, um rapaz, com as melhores leituras, o melhor acompanhamento, a melhor educação, posta ao serviço da sociedade num chorrilho interminável de azedume. O vencido vive para criticar a “choldra”. O país é demasiado pequeno para o seu ego, para as suas exigências. Pesa-lhe, acima de tudo, ter de “viver entre brutos”. Normalmente, o vencido da vida é um ex-funcionário público desiludido – nas suas manifestações mais recentes e com a falência do Estado, é um candidato frustrado a funcionário público desiludido. Este estatuto humilhante, de quem se atreve a não comparticipar o seu estilo de vida, que ele merece automaticamente, só lhe aumenta o pó à vida.

O vencido da vida odeia o país, porque o país é demasiado tacanho, é demasiado conservador, é demasiado imitador, é isto e é aquilo devido a uma exagerada intelectualização de circunstâncias históricas e sociais que são permanentemente analisadas cum coeteris paribus para cair dentro do modelo pequenino e atrofiado do que Portugal “devia ser mas não é porque x mais y menos z”. São os judeus expulsos, os democratas no poder, o capitalismo, o socialismo, o país é para o vencido, nas suas diferentes modalidades da esquerda à direita, o espelho de tudo o que lhe corre mal pessoalmente.

O vencido da vida tanto mais perora quanto menos fornica.

A sua vida política, o seu pensamento, estão ligados intrinsecamente à vida pessoal, uma vida cuja gestão emocional é apenas possível de ser descrita como uma enorme falência.

O vencido da vida vê as suas conquistas, as suas derrotas, as agruras da sua vida, normalmente confortável e sem riscos, com o espelho da sua montanha russa emocional – exagerando cada pormenor, cada traição, cada falha como um desastre nacional. Tudo o afecta, tudo é uma vergonha, todos se lhe opõem. Resta-lhe assim a reclusão, o eremitério, tarefa na qual falha redondamente. O vencido da vida, na senda dos snobes de há 100 anos, os quais não tem nem posição nem dinheiro para imitar, perde-se muito facilmente na devassidão pública, na preguiça e na mediocridade doméstica.

Não deixa porém de dar uma lição ou outra às tropas. Afinal, o vencido leu mais, viu mais, experenciou mais que todos os outros, à sua maneira muito peculiar. Se os outros soubessem, ouviam-no. O problema é que o país, ao contrário do que dizem os vencidos, gosta de vida, gosta de animação, gosta de brincar, de copiar, de adaptar, de experimentar.

Só não gosta deles.

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